Por Heron de Freitas Santiago
Acredito nas coisas simples da vida como ferramentas evolutivas.
Creio em ouvir música alta no carro com os vidros abertos.
Creio em gritar tal música a toda garganta sem vergonha de errar a letra.
Creio em mudar para a próxima subitamente (santo botão esse que passa tudo para frente).
Creio em se balançar e se contrair epileticamente com honestidade aos espasmos internos, moribundos ou não, causados pela música.
Creio principalmente nos sorrisos neuróticos, sensualmente vidrados, durante as ultrapassagens que, às vezes, perduram pelas longas e lentas jornadas atrás dos caminhões.
E, finalmente, creio na surdez que baixar o som cria quando se sai da estrada e o superego manda não violentar ninguém (pelo menos não com suas preferências musicais).
Muito gostoso fazer tudo isso, libertário.
Faz até pensarmos o que aconteceria se virássemos o volante com tudo de repente.
Difícil mesmo é ter um segundo alguém mexendo no rádio ao seu lado.
Um terceiro ou quarto opinando…
E se for uma Kombi? Imagina?!
Perceber a delícia de pulsar na solidão e a delícia de ter um passageiro que pulsa do seu próprio jeito é o que gera qualquer ordem e qualquer desordem.
Agora a parte boa, e que os queixos caiam!
Energia se mistura em qualquer proporção e enxergar um padrão depende somente da distância que se olha ou que se ouve.
O todo, se visto longe o suficiente, é apenas um ponto. Assim, sintonizar-se depende apenas das lonjuras que nossa boa vontade evolutiva nos permite observar.
Pois é, creio somos todos ruidosos rádios buscando a sintonia feliz, enquanto não chega o dia em que seremos um só volume e um só botão.
Um volumoso silêncio a toda garganta, reverberando sem cordas, sem sopros e sem percussão.
Sobre o autor:
Heron de Freitas Santiago, lorenense, tem 26 anos e é membro fundador da AJLL. Com uma criação diversa e repleta de boa vontade, cresceu sendo estimulado à pluralidade e à integração de conceitos. Tendo as artes plásticas como expressão artística primária, procura compor seus textos de forma libertária, sem amarras de qualquer espécie, para traduzir com propriedade o que transborda de si.
Esse texto é de exclusiva responsabilidade do autor. A AJLL não se responsabiliza pelas possíveis opiniões aqui apresentadas. Respeitamos a criação literária de cada autor, difundindo linguagem literária de linguagem gramatical, em textos que julga ser necessário







