Por Vânia de Oliveira Alves
O caminho para o trabalho consiste em ruas tranquilas, bem frequentadas. Praticamente não há perigo. Apesar de que hoje, ah, os tempos são outros…
Depois do quarteirão de casarões coloniais, uma grande praça – um tanto deserta devido ao frio desses últimos dias – conduz ao escritório, bem no centro da cidade. Sentado, ali junto à fonte principal, está um grupo de… bem, pessoas que não devem ser daqui… Eles falam alto, têm esse sotaque um pouco diferente… e são negros, cerca de oito, nove – você não vê ao certo para que não pensem que você está encarando.
Decide acelerar o passo.
Sente um certo receio, afinal está vulnerável ali – você, cidadão de bem, indo trabalhar, e eles, ali, à toa. Sabe-se lá o que se passa, quais são suas intenções.
Automaticamente, redobra a atenção com seus pertences, só por garantia.
Instintivamente, põe a mão no bolso.
Embora não seja preconceituoso, sabe que é melhor desviar daquele caminho – vai saber, não é mesmo?
Opta então pela avenida paralela. É início do horário comercial e a presença de boas lojas e cafeterias garante a movimentação de pessoas trabalhadoras, e a sua segurança. É verdade que as calçadas tornam-se um pouco mais caóticas, há que se esperar o sinal verde para que pedestres atravessem as ruazinhas transversais, e o tempo previsto para chegar até o destino desejado aumenta. Mas é melhor garantir, mesmo chegando uns cinco minutinhos atrasado.
O celular toca – é o cliente, com reunião agendada para o primeiro horário do dia. Pede uma referência para chegar ao escritório, e avisa que atrasará cerca de vinte minutos – seu carro quebrou pela manhã e foi necessário vir ao centro com transporte público.
Então indica a ele o melhor caminho, aquele que evita… bem, por garantia, ele não é da cidade… é melhor vir pela avenida.
Preconceito? Não, não é isso, imagina, é só segurança mesmo. Garantia.
…
O texto, ligeiramente adaptado da vida real, narra um episódio (italiano) de clara separação entre os nascidos na cidade em questão e os estrangeiros – numerosos e diversos em suas línguas, religiões e costumes, mas ainda tidos como “outros”, “eles”, “aqueles”, “estranhos”.
Não, não são bem-vindos. A separação tão marcante – física, espacial – era desafiada apenas pelos jovens estudantes nos pontos de ônibus. Ali havia interação, integração; talvez sementes de transformação.
O episódio, porém, poderia perfeitamente ser brasileiro.
E, nesse sentido, este relato não tem final, não tem moral. É apenas provocativo.
Com dedicatória carinhosa àqueles que balançaram a cabeça, afirmativamente, a quaisquer (ou a todas) as “opções de segurança” adotadas pelo personagem.
(Porque não, não é preconceito – EU preconceituoso? – não, EU não, que isso! imagina… eu só… só acho melhor evitar, não é mesmo?)
Sobre a autora:
Vânia de Oliveira Alves. Mulher, valeparaibana, engenheira, aspirante a socióloga, artista de fins de semana – e às vezes durante a semana também. Escreve, fotografa, discute bastante, e tem bastante medo, mas geralmente vai lá e faz. Ainda não aprendeu a abrir uma garrafa de vinho, mesmo com aqueles saca-rolhas bonitos; talvez seja esse o próximo-pequeno-desafio a ser superado. Para descrições técnicas, está no LinkedIn, ResearchGate e Plataforma Lattes, é só jogar no Google 😉







