Por Danilo Passos
Sabia que o amor é controverso? Ele muda as nossas opiniões.
Ela estava na biblioteca desfrutando de um livro que lhe causava interesse. Seus cabelos loiros ondulados se contemplavam com os olhos negros arregalados para a obra em suas mãos. Após algumas páginas viradas, a moça avistou um homem vindo ao seu encontro. De porte médio, magro, moreno, cabelos enrolados e olhos castanhos. Trazia consigo um notebook, jornais e um copo médio de café até o topo. O homem jogou tudo na mesa em que a mulher estava sem reparar que ali já estava ocupado. Segundos depois, ele percebeu que seria um intruso.
– Oh! Desculpe-me – disse.
E começou a arrumar seus pertences.
– Não! Fique à vontade! – respondeu a mulher dos cabelos ondulados.
– Pois bem! Obrigado! – o homem se afobou. – Este artigo está me tirando o sono.
Ajeitou o seu notebook e jornais na mesa, em seguida, sentou-se de frente à moça.
– Artigo? – indagou a mulher.
– Sim, sim! Oh! Que desatenção! Prazer, Henrique! Jornalista! – levou sua mão de encontro à moça, que o cumprimentou imediatamente.
– Prazer, Ana! Professora! – ela sorriu.
O jornalista começou a digitar em seu notebook e tomou um gole de café.
– Está quente! – disse, fazendo uma careta de repulsa.
A professora riu. Um pequeno silêncio pairou sobre os dois.
– Desculpe-me a intromissão, mas qual o tema do seu artigo? – ela perguntou.
– Amor! – respondeu o jornalista com um enojo batendo o pulso na mesa.
– É um tema perfeito… – Ana sorriu.
O jornalista encostou-se a cadeira e a fitou seriamente.
– O que foi? – ela perguntou instigada.
– “Diário de uma paixão”, Sparks! – disse Henrique sobre a capa do livro nas mãos dela. – Está explicado! Uma iludida!
Ela deu de ombros. Sem entender.
– Como assim “iludida”?
– Livros românticos e olhos brilhantes… – ele voltou sua atenção para a tela do computador. – …Ilusões e mais ilusões.
Ana deixou seu livro de lado e encarou Henrique.
– O amor não é apenas ilusão.
– Não mesmo, é decepção também.
– Nem isso! Amor é sentir-se bem!
– Eu me sinto bem com uma música que gosto, um filme que admiro ou um livro que leio. Amor é querer se sentir bem, mas não se sentir assim.
– Tudo que queremos, poderemos conseguir.
– Usou o verbo na conjugação correta. “Poderemos”. Uma hipótese. Arriscada.
A professora ficou impressionada com a tamanha rigidez do jornalista.
– Suas colocações são dignas de uma pessoa meramente fria e racional.
– Pois saiba que eu sou uma emoção ambulante.
– Não parece!
– Pois sou! Ou era! Um romântico incorrigível.
– Está explicado! Você sofreu uma grande decepção amorosa – a professora riu.
– Não existem “decepções amorosas”, quando já sabemos o que irá acontecer junto a alguém. Quando estamos cientes sobre o fim de um relacionamento.
Ana ficou instigada. E Henrique tomou mais um gole de seu café que começava a esfriar.
– O jornalista é vidente? – ela ironizou.
Henrique elevou a sua sobrancelha num tom de dúvida.
– Pois bem – ele disse. – observe este copo de café, há alguns minutos atrás estava quente, mas em questão de pouco tempo ele começa a esfriar. Café frio não agrada a todos. O amor é como o café, saboroso, enquanto quente, amargo, enquanto frio.
E voltou sua atenção para o seu notebook. Ana respirou fundo e continuou.
– O senhor está sendo muito radicalista. Sabia que o café se requenta?
– Mas não fica o mesmo gosto.
– Gosto é muito pessoal. Cada um tem um paladar apurado. Eu gosto de café requentado.
– Porque é uma iludida.
– Não. Porque sou romântica.
– A senhorita tem namorado? – perguntou o jornalista.
– Não.
– Então há de convir comigo que não tem como dizer que és romântica.
– Não preciso de alguém para ser romântica.
– Mas precisa de alguém para testar o seu romance – disse ele. – As pessoas acham que sabem amar, principalmente aquelas, que se perdem em livros e filmes românticos. Mal sabem elas que são pura ficção.
– O amor é tão simples…
– Muitos dizem isso. E ainda complementam com “as pessoas que complicam” – Henrique soltou um leve riso. – E pode notar que a maioria que diz isso, são aquelas pessoas que beijam outras pessoas, mas não querem comprometimento.
– Muitos não se apegam. Mas amam.
– Amar sem se apegar, não existe.
– Mas pode virar um amor não correspondido.
– Amor não correspondido, é amor.
A professora ficou mais instigada ainda com a colocação do jornalista.
– Mas o verdadeiro amor é ser correspondido.
– Também – ele concluiu e tomou mais um gole de café. – Há quem ama e sabe que não irá resultar em nada e ainda assim é amor.
– Ou acha que é amor.
– É amor – ele bateu o pulso mais forte na mesa.
A professora se espantou (e ficou brava).
– O senhor tem namorada? Noiva? Mulher?
Ele revirou os olhos.
– Sobrevivo sem um beijo.
– Você precisa é amar! – ela se levantou.
– E você ler romances sem se apegar aos contextos deles – Henrique também se levantou.
Enquanto Ana caminhava para pôr o livro de volta a uma das estantes numerosas daquela biblioteca, Henrique seguia atrás dela.
– Vou ver se acho um livro com algum estudo sobre esse sentimentalismo infame – dizia ele enquanto caminhava.
– Será difícil você escrever sobre um tema, sem acreditar no mesmo.
– Não preciso acreditar em algo para falar.
– Mas precisa vivenciar.
– Ana, seus cabelos ondulados são muito bonitos para você dizer asneiras.
– Meus cabelos são bonitos? – Ana parou e se virou para ele.
– Sim, sim – os olhos do jornalista brilhavam.
A professora se aproximou ainda mais.
– Somente os cabelos?
– Você é uma professora muito bonita… – ele disse, engasgando.
– Sou?
– Sim, sim – respondeu.
– Olhos brilhando… – ela se aproximou dele -… Elogios gentis e respostas curtas… – chegou mais perto. E subitamente o beijou. Quando seus lábios se desencontraram de Henrique, ele a beijou.
– Acho que alguém está começando a se… – Ana iria dizer “se apaixonar”, mas Henrique a interrompeu.
– Te achei atraente, bem antes de me sentar naquela mesa. E aquele engano em eu me assentar no mesmo lugar que você, foi proposital. Ana ficou surpresa, sorriu subitamente e o café continuava na mesa.
Então, sabia que o amor é controverso? Ele muda as nossas opiniões. – chegou mais perto.
Bibliografia:
Danilo Passos é escritor, roteirista e graduando em Letras pela FATEA e pesquisador do PIBIC – CNPq com pesquisas nas áreas de Estudos Literários e Educação. Algumas de suas pesquisas foram premiadas em congressos como na FATEA e na Universidade Federal de Itajubá – UNIFEI. Em 2014 ganhou o X Festival Gato Preto de Lorena com o curta-metragem “Álvares”, inspirado em fragmentos poéticos de Álvares de Azevedo.







